Como compartilhar dados entre empresas sem abrir mão de segurança, controle e soberania? Essa foi a pergunta que orientou o painel “Data Spaces Industriais: o novo motor da competitividade e da cooperação União Europeia–Brasil”, realizado na Expo + Indústria 2026, na Arena + Tecnologia. A atividade integrou a atuação conjunta da ABINC e da GIZ no evento, aproximando o ecossistema brasileiro das iniciativas que estão construindo o futuro da economia de dados.
A mesa reuniu Maurício Finotti (Comitê Open Industry da ABINC e I-SENSI), Flávio Maeda (vice-presidente da ABINC e Diretor de Digitalização da AFRY), Johannes Klingberg (Diretor de Projetos da GIZ) e Bruno Eisinger (fundador da Infinite Foundry). O debate colocou em evidência um princípio que está no cerne dos Data Spaces: é possível colaborar e trocar dados mantendo cada empresa no controle da sua própria informação. Não se trata de escolher entre cooperação e soberania — trata-se de construir a infraestrutura de confiança que permite ter as duas coisas ao mesmo tempo.
Arquitetura de dados começa no projeto de engenharia
Representando a AFRY, Flávio Maeda abriu sua participação com uma recomendação prática para as empresas industriais: a infraestrutura de dados precisa ser pensada desde os estágios iniciais dos projetos de engenharia. Fontes de dados, sensores, sistemas e conectividade desenham a arquitetura interna de dados da planta — e essa arquitetura não pode ser um improviso de última hora.
O motivo é claro. As empresas precisarão desses dados, mais adiante, para atender às novas regulações de sustentabilidade — como o Passaporte Digital de Produto e o CBAM — e para se conectar ao novo mercado de comércio de emissões no Brasil. O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) exigirá uma base sólida de rastreabilidade e auditabilidade, já que cada número usado nos cálculos de emissões precisará ser confiável e verificável. Quem tratar dados como subproduto vai correr atrás do prejuízo; quem os tratar como ativo de engenharia, desde o primeiro projeto, chegará preparado — para a regulação e para o mercado.
Maurício Finotti salienta que, por meio da digitalização de processos, retrofit inteligente, sensoriamento IIoT e Inteligência Artificial, equipamentos industriais — inclusive máquinas legadas — podem passar a gerar dados confiáveis, contextualizados e interoperáveis, criando a base necessária para aplicações como rastreabilidade, Passaporte Digital de Produto, indicadores de carbono, manutenção avançada e integração com Data Spaces.
Essa abordagem também permite colocar em prática a estratégia de “começar pequeno e escalar” discutida no painel. Um equipamento, uma linha de produção ou um processo específico pode ser conectado inicialmente a partir de um caso de uso com valor econômico mensurável; a mesma infraestrutura de dados pode então evoluir para integrar fornecedores, clientes, OEMs e outros participantes da cadeia. Assim, a digitalização do ativo industrial deixa de ser apenas uma iniciativa interna de eficiência operacional e passa a habilitar sua participação em novos ecossistemas e serviços baseados em dados.
A grande ambição: convergir domínios onde o Brasil é referência
Os Data Spaces costumam nascer pequenos: uma empresa trocando dados com outra, um fornecedor com seu cliente, elos de uma cadeia logística. Mas a ambição que se desenha para o Brasil é maior. Eles representam a oportunidade de conectar grandes domínios em que o país já é uma referência internacional.
Três convergências ilustram esse potencial:
- Agro × Finanças. O Brasil é referência global em competitividade, produtividade e digitalização do agronegócio, com forte uso de IoT, e igualmente referência mundial em digitalização financeira, com inovações como o Pix. É essa ponte que o projeto Open Agro — em articulação com o Banco Central — busca construir para atacar um problema real: o crédito rural. Depois do Open Finance, o Open Agro.
- Indústria × Finanças. A mesma lógica de aproximar o chão de fábrica do capital deu origem ao Open Industry, projeto que nasceu antes mesmo do Open Agro e que segue estruturando a camada de governança e confiança entre o setor industrial e o financeiro.
- Carbono × Finanças verdes. O Brasil tem a ambição de liderar a economia verde e a descarbonização. Ligar os dados de carbono ao setor financeiro é uma oportunidade de o país sair na frente também nesse campo.
Um caminho próprio, diferente do europeu
A conclusão do debate apontou para uma estratégia de implementação. A Europa buscou erguer grandes Data Spaces de uma só vez. O Brasil tem a chance de fazer diferente: começar pequeno, a partir de um caso de uso real, e escalar — mas com a missão clara de convergir justamente as indústrias em que já é forte, para se posicionar ainda mais forte.
O futuro da economia de dados no Brasil não será copiado. Será construído a partir das nossas próprias forças — e o Open Industry está no centro dessa construção.
O Open Industry é uma iniciativa da ABINC voltada à interoperabilidade e ao compartilhamento confiável de dados na indústria brasileira.